Sabe-se hoje que, a mais antiga tabacaria de Lisboa, poderá ter sido criada ainda em 1861 ou mesmo 1855 pois existem anúncios a fazer prova disso. Se assim for, os seus presumíveis fundadores serão dois belgas, negociantes de tabaco e residentes na Antuérpia, de seus nomes: François Caen e Charles Vanderin.

Já nesses tempos, o tabaco de origem cubana era sinónimo de qualidade, daí a escolha de um nome que ainda actualmente mantém o seu significado. Mas entretanto, a esse nome se associou uma imagem de qualidade, de um saber feito pela experiência e de um serviço profissional e cuidado que hoje, tal como há 150 anos atrás, é apreciado pelos clientes.

Inicialmente a única porta para o lado da Rua das Portas de Santa Catarina (Rua Garrett) fazia a serventia. Desde essa época, as várias marcas de tabaco, os charutos, os cigarros, a importação exclusiva do papel para tabaco “Zig-Zag”,fizeram da “Casa Havaneza” um estabelecimento de referência. Tinha a distribuição exclusiva do tabaco de onça da “Companhia de Tabacos de Portugal”, de três qualidades: normal, francês e superior, com preços à volta dos 60 e 70 réis. O charuto de vintém era a “glória” da casa. 

 

 

 

 “Casa Havaneza” em 1913

 

Anúncio de 1905

Tabela das qualidades de tabaco comercializadas pela “Companhia dos Tabacos de Portugal”, em 1903

Escritores, pintores, políticos, empresários,.... Muita gente conhecida e anónima passou (e passa) pela Casa Havaneza do Chiado. Teve o 1º posto de telégrafo público do Chiado e era o microcosmos da intelligentsia lisboeta (e portuguesa) no último quartel do séc. XIX (Eça de Queirós era um dos rostos e das penas mais conhecidas dessa «geração nova» – a Geração de 70). A conhecida loja estará para sempre ligada à própria história da cidade de Lisboa e ao nome do famoso banqueiro – Henry Burnay foi, sem dúvida, quem a tornou famosa e delineou os contornos da sua personalidade que em muitos aspectos, persiste até aos nossos dias.

Em "A Correspondência de Fradique Mendes" escreveu Eça de Queiroz: «E se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia domingo, às duas, depois da missa do Loreto à porta da Casa Havaneza». Em "Os Maias" o escritor descreve «A uma esquina, vadios em farrapos fumavam, e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando». Já na obra “O Crime do Padre Amaro" vive-se uma situação mais agitada: «Nos fins de Março de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havanesa, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a porta... Mas ninguém se mostrava mais exaltado que um guarda-livros do hotel, que do alto do degrau da Casa Havanesa brandia a bengala, aconselhando à França a restauração dos Bourbons.»

Eduardo de Noronha fala da gente que por ela passava, no seu livro "À Porta da Havaneza": " Não há uma só criatura portuguesa que contasse na sua existência um momento de notoriedade, mau ou bom, que se não tenha ali encostado... estadistas de renome, estroinas incorrigíveis, mulheres belas, virtuosas ou não, representantes de famílias aristocráticas, ídolos do povo, militares cobertos de louros, criminosos da pior espécie, revolucionários de há cinquenta anos e de hoje".

Também Guerra Junqueiro refere as personagens que por ali passavam em "No Chiado": "Vamo-nos encostar à porta da Havaneza/E veja-se passar, essa burguesa,/Que vai de risco ao meio e vai de fato preto/ Ao sport de uma hora - à igreja do Loreto".

Outro dos eternos apaixonados de Lisboa e dos seus bairros, José Cardoso Pires, refere em "Lisboa, Livro de Bordo": "Chiado, um cenário, um ritual. De charuto a fumegar à porta da Havaneza, Ramalho Ortigão assistiu à passagem por aqui du tout Lisbonne do seu tempo".

Anúncio de 1912

 

É em 1864 que o nome de Henry Burnay aparece pela primeira vez na história da Casa Havaneza enquanto arrendatário da tabacaria sendo o proprietário, António de Oliveira Guimarães. Em 27 de Maio de 1865 é assinada nova escritura permitindo ao banqueiro continuar o seu negócio até 31 de Dezembro de 1874.

Em 1875, no mesmo ano em que nasce a firma Henry Burnay & Cª e, visto que os negócios corriam bastante bem, o banqueiro decide alargar o espaço da Casa Havaneza alugando os números 124, 126 e 128 da R. Garrett ao Sr. Luís Afonso. O estabelecimento passa a abranger toda a área entre a praça do Loreto e a continuação da rua do Chiado e Burnay contrata ainda Luís Afonso para trabalhar na tabacaria.

A Casa Havaneza agia como uma parte extra do Banco Burnay. O cliente entrava no banco no Largo do Chiado, pedia um empréstimo e, à saída, podia comprar um charuto cubano.

Durante a crise financeira de 1876, quando o Banco de Portugal esgotou o ouro, chegou a anunciar que seria possível trocar notas e moedas por ouro na Casa Havaneza.

Mas, é em 1877 que os dois belgas fundadores, François Caen e Charles Vanderin, assinam uma escritura oficializando a “transacção amigável” com a firma Henry Burnay & Cª. A partir desta data a gestão da tabacaria passa a ser da inteira responsabilidade de Henry Burnay e dos seus dois sócios: Eugénio Larrouy e Ernesto Empis, cunhado de Burnay.

A Casa Havaneza irá ainda passar, durante a era Burnay, por mais três escrituras de arrendamento mantendo contudo o mesmo espaço comercial e sabendo-se de antemão que o seu principal mentor acabaria por confiar a gestão do estabelecimento aos seus dois caixeiros: Domingos Monteiro e Eduardo John.

Imaginamos o Chiado em 1900. Não havia a Brasileira. A Brasileira só seria inaugurada em 1905. Eça de Queiroz não conheceu a Brasileira. Na altura em que por ali existiu, ou forjou existências, o pólo aglutinante era a Casa Havaneza. Mas o Chiado era já o centro da elegância e da intelectualidade. Notam-se, em comparação com o tempo presente, grandes diferenças. O espaço era menos compartimentado, mais livre. O tráfego reduzia-se essencialmente ao eléctrico que seguia a Rua da Misericórdia e eventuais carroças ou caleches. O Largo do Chiado ligava-se ao Largo de Luís de Camões, era uma zona aberta. O trânsito humano era em menor número. E observavam-se, basicamente, as três classes sociais clássicas: povo, burguesia e aristocracia. O povo era invisível, a burguesia exibia fatos janotas e a aristocracia salientava-se pelo luxo e extravagância da roupa.

A 29 de Março de 1909 faleceu Henrique Burnay e a história da mais antiga tabacaria de Lisboa continua o seu percurso até aos dias de hoje mas, sem nunca dissociar-se da imagem do Conde Burnay.

     
                               Anúncio de 1933                                                       “Casa Havaneza” em 1959

Em 1940, a loja foi toda remodelada, separando a loja e o Banco.

Em 1960, já a Casa Havaneza pertencia ao Banco Burnay, quando foi criada a Empor – Empreendimentos Comerciais e Financeiros, SARL cujo capital social era maioritariamente de Virgílio de Sousa.

Assim sendo, no dia 31 de Março de 1960, António José Brandão e José Robert Callens, na qualidade de administradores do Banco Burnay, e Virgílio de Sousa, administrador delegado e em representação da Empor foram os protagonistas de uma nova escritura que visava a transferência do negócio dos tabacos do Banco para esta nova empresa. A decisão teve por base uma exigência legal que impunha que as instituições bancárias abandonassem os negócios que não estivessem directamente ligados ao objectivo social.

Neste contrato define-se ainda que o espaço antes destinado exclusivamente ao estabelecimento comercial passa agora a ser também uma dependência do Banco Burnay sendo o espaço da loja Casa Havaneza consideravelmente reduzido.

A partir deste momento, a história da Casa Havaneza irá passar por sucessivas transformações, momentos melhores e piores, dirigidos por diferentes nomes e estilos de gestão. 

A partir da década de 50 a gestão encabeçada por Virgílio de Sousa iniciou aquele que seria o primeiro grande processo de reestruturação dos negócios da Casa Havaneza. A histórica tabacaria continuava a ser um marco na prestigiosa zona do Chiado mas, era evidente a necessidade de acompanhar os tempos, as novas necessidades e modas.

Assim sendo, e aproveitando a diminuição de espaço dedicada à Casa Havaneza, a Empor S.A. decide investir fortemente na remodelação da fachada e do interior da loja ganhando alguns toques de requinte e personalidade que muito deram que falar na época. Falamos da grade de bronze dourada da autoria do escultor Jorge Vieira e da belíssima gravura em mármore policromado da autoria de Bartolomeu Cid. Pretendia-se modernizar o espaço bem como, adaptá-lo aos novos negócios que a empresa estava empenhada em conseguir para a loja. 


Fachada e interiores da “Casa Havaneza” em 1961

 

Esta “nova” loja foi construída pela empresa “Carlos Eduardo Rodrigues”, projectada pelos arquitectos António Azevedo Gomes e Francis Jules Léon, com pinturas de Bartolomeu Cid e vitrais de Ricardo Leone.

                                  

                                                            Painel em baixo relevo em mármore de Bertolomeu Cid

A nova política comercial incluiu a negociação da representação exclusiva dos Habanos de Cuba através da embaixada. Foi, sem dúvida, o primeiro passo para a posição privilegiada que a empresa tem ainda hoje ao nível do negócio dos tabacos. 

Contudo, nesta mesma gerência outras áreas foram desenvolvidas, nomeadamente a vertente do “Gift”. A Casa Havaneza passa a ser frequentada tanto por clientela masculina como por muitas senhoras que encontram no estabelecimento requintadas peças de cristal, porcelanas francesas, estojos diversos em couro ou madeiras preciosas para oferecerem ou para delicados caprichos domésticos.

Nos anos 70 é solicitada ao arquitecto Nuno Corte Real a remodelação da Casa Havaneza do Chiado. Passados 30 anos, em 2009, a Havaneza surpreende novamente quem passa... mantendo os traços da remodelação dos anos 70, surge agora com um ar mais moderno e equipada com um walk-in humidor, à semelhança das lojas das Amoreiras e Colombo.

                           

                           

                                  Fachada e interiores da “Casa Havaneza” nos anos 70 do Século XX

A era dos grandes centros comerciais surge no nosso país como uma tendência do novo comércio que parece irresistível aos olhos dos clientes e à qual, nem a tradição da longínqua Casa Havaneza fica indiferente. Mantendo a histórica loja no coração do Chiado inicia-se a expansão da marca.  

A Casa Havaneza das Amoreiras abriu as suas portas ao público em Setembro no ano de 1985.

Encontra-se situada naquele que foi o primeiro grande espaço de comércio e serviços a nascer na área de Lisboa. Desde a década de 80 que outros grandes centros comerciais abriram em Lisboa, mas o Amoreiras Shopping Center continua nas preferências de muitos dos lisboetas.

                       

 “Casa Havaneza Amoreiras” 2003 

A loja Casa Havaneza do Colombo encontra-se aberta desde que o próprio centro acolheu os seus primeiros visitantes em Setembro de 1998.

                  

                                     “Casa Havaneza Colombo” 2003

Em 2007 a loja Casa Havaneza das Amoreiras sofre uma remodelação e torna-se numa loja arejada, com muita luz e com uma sala de humidificação com larga vitrina, que entra pela loja adiante. 

                    

                      

 “Casa Havaneza Amoreiras” 2013 

Em 10 de Agosto de 2007 a Casa Havaneza do Colombo desloca-se para o piso 0 e fica numa das principais vias do Centro Comercial do Colombo.

     

                                                                    “Casa Havaneza Colombo” 2013

Em Setembro de 2009 a loja Casa Havaneza do Chiado sofre mais uma remodelação. 

        

       

      

                                                 “Casa Havaneza Chiado” 2013

Finalmente em 2012 concretizou-se um sonho antigo, a abertura de uma Casa Havaneza no Porto, perto da zona do Bessa na Rua Arq. Cassiano Barbosa loja nº40.

            

            

                                                      “Casa Havaneza Porto” 2012

Durante estes 150 anos a Havaneza foi-se modificando, mas sempre com o cuidado de não perder a personalidade original. O que nunca se alterou, desde a sua fundação, foi a sua dedicação aos charutos, e particularmente aos Puros Habanos, para além dos demais tabacos e acessórios para o fumador.

O sucesso destes estabelecimentos prova que o conceito continua actual e que as reestruturações desenvolvidas mereceram a confiança e agrado de antigos e novos clientes.

São 150 anos de história, com muitas memórias de bons momentos de puro prazer.

"A uma esquina, vadios em farrapos fumando, e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, politicando" (Eça de Queirós, "Os Maias")

"Chiado, um cenário, um ritual de charuto a fumegar, à porta da Havaneza, Ramalho Ortigão assistiu à passagem por aqui du tout Lisbonne do seu tempo" (José Cardoso Pires, "Lisboa, Livro de Bordo").

"O Chiado - resistirá. Enquanto existirem a Havaneza, a Brasileira e a Bertrand, temo-lo vivo." (Norberto de Araújo)