As origens do tabaco são antiquíssimas. Instrumento inventado para fumar – mas não apenas tabaco, já que esta planta foi desconhecida durante séculos -, existem registos que atestam a sua existência há milhares de anos. São disso testemunho os cachimbos de pedra e o chamado “fumo da terra”, um pequeno cone feito no solo com dois buracos: num, eram introduzidas folhas de plantas aromáticas ou alucinogénias; no outro, o fumador, deitado no chão, encostava a boca e respirava o fumo. A inalação do fumo de ervas que se espalhavam sobre a fogueira terá precedido a invenção de um instrumento para albergar essas mesmas ervas.

Escavações arqueológicas no continente americano permitiram encontrar cachimbos em pedra, datados de 2000 a 3000 ac, e restos de folhas e de cachimbos foram descobertos junto de múmias egípcias com 4000 anos.

Inúmeros pictogramas das civilizações asteca e maia atestam a utilização de formas primitivas de cachimbos nestas culturas. Entre os Astecas, além de serem usados pelos “sacerdotes” em cerimónias religiosas, os cachimbos cumpriam ainda uma função social e de convívio, reservada para o final das refeições. De um modo semelhante, admite-se que os Maias poderão estar na origem da divulgação deste hábito por todo o continente americano.

No Norte do Chile, arqueólogos trouxeram à luz do dia cachimbos em pedra, com «uma forma denominada de “T” invertido (fornilho com duas boquilhas), datados de 600 ac., e também cachimbos em cerâmica, de 200 a 400 dc., o que evidencia a prática de fumar desde tempos muito antigos». No Museu Arqueológico de Córdova, um mosaico de século II retrata um homem a fumar cachimbo.

Pelo mundo fora, não faltam exemplos deste hábito ancestral que, conjugado com o consumo do tabaco, iria provocar na Europa uma revolução nos costumes e na vida social dos homens. Pensa-se que foram as tribos índias da América do Norte as que primeiro fumaram tabaco através de cachimbo. Os indígenas usavam o tabaco nos seus rituais sagrados e religiosos, como símbolo de amizade, mas também como importante valor de troca. Constatou-se, no entanto, que o cachimbo para tabaco tinha múltiplas funções: «Nas obras dos escritores espanhóis mais antigos encontram-se dados acerca de cerimónias em que se realizavam tratamentos de doentes, sacrifício de prisioneiros e invocações de antepassados e dos espíritos protectores. Em todos estes actos e em todos aqueles em que a magia intervinha, o tabaco desempenhava um papel importante.»   

Em 1534, após descobrir e desembarcar na região que viria a constituir o futuro Canadá, Jacques Cartier descreve o cachimbo que viu fumado pelos nativos: «Um pedaço de madeira oca onde colocavam a erva seca, e inclusive em pó (…). Aspiram o fumo e devolvem-no pelo nariz, que faz assim a função da chaminé da casa.»

Quando em 1492 Cristóvão Colombo chega à América, depara com o uso do tabaco pelos indígenas. A 13 de Novembro desse ano, o navegador anota no diário de bordo os hábitos dos índios Arawak, que lhe ofereceram tabaco – este é o primeiro registo escrito referente àquela planta, embora haja testemunhos de que o uso do cachimbo para fumar tabaco fosse comum em muitas regiões da América do Norte.

Rodrigo de Jerez, um dos marinheiros de Colombo, terá ficado fascinado com o facto de os índios utilizarem um objecto (cachimbo) para fumarem uma planta chamada tabac, tendo sido ele o introdutor deste hábito na Europa (Espanha). A partir desta data, a história do tabaco encontra-se mais bem documentada, e a evolução do cachimbo processa-se bem mais rapidamente:

  • Em 1550, o embaixador francês em Lisboa, Jean Nicot de Villemain, “descobre” propriedades medicinais na planta do tabaco, nomeadamente no combate à dor de cabeça, e em 1560 dá a conhecer a planta à Europa – em Portugal e Espanha ela já era conhecida -, enviando à rainha Catarina de Médicis (1519-89) sementes de tabaco e folhas secas para a estufa real.
  • A partir de 1564, são produzidos cachimbos em greda (chalk pipes) principalmente para os marinheiros. As tripulações da esquadra inglesa comandada por Sir Francis Drake fumavam tabaco nestes cachimbos.
  • Em 1585, Sir Walter Raleigh (1554-1618) introduz o cachimbo na corte da rainha Isabel I de Inglaterra.
  • No último quartel do século XVI surgem em Staffordshire (Inglaterra) as primeiras manufacturas de cachimbos em argila.
  • Em 1600, já eram usados na Noruega cachimbos de ferro.
  • Em 1604, Jacob I, de Imglaterra, lança a primeira campanha antitabaco.
  • Durante a guerra dos Trinta Anos (1618-48), o hábito de fumar cachimbo espalha-se pelo Velho Continente.
  • Cerca de 1650, já existiam 120 artesãos de cachimbos em Londres e mais uns quantos em Bristol. Os Ingleses tornam o cachimbo um objecto popular e são os primeiros a comercializá-lo, logo seguidos pelos holandeses, com as fábricas de Gouda, de cachimbos de argila, cujo predomínio se manteve até ao inicio do século XIX.

Na Europa, os primeiros cachimbos em madeira aparecem, cerca de 1650, em Ulm, na Alemanha, cidade que ganha fama com essa produção, nomeadamente em nogueira. Outras madeiras serão experimentadas – como o carvalho, a faia, o ulmeiro e o buxo -, contudo, porque resistem mal ao aquecimento, os cachimbos são reforçados com anéis de ferro e outros metais.

Ao longo dos tempos, muitos materiais foram utilizados para a sua confecção: dos cachimbos de água do Médio Oriente (hookah, narguilé), aos cachimbos de tubo feitos com folhas de bananeira, cana ou madeira; dos produzidos em bronze, marfim e ébano pelas tribos africanas, aos que usam a maçaroca de milhos, do outro lado do Atlântico. 

No continente europeu, por volta de 1710, surgem os cachimbos em porcelana e, uma década mais tarde, são descobertas as qualidades do silicato de magnésio, mineral usado para a produção de cachimbos em espuma de mar, que permite belos motivos folclóricos nos fornilhos e transforma o cachimbo num objecto de prestígio.

Em 1856 (oficialmente) dá-se um avanço significativo quando a urze (Eriça arbórea) começa a ser empregue nas fábricas francesas de Saint-Claude. Resistente ao calor e ao fogo, fácil de trabalhar e sem interferir grandemente no gosto e aroma do tabaco, a urze é, desde então, o material por excelência na produção dos cachimbos.

O cachimbo, enquanto objecto privilegiado para o consumo de tabaco, sofre um primeiro embate na guerra da Crimeia (1854-56), com o início da vulgarização do cigarro e do tabaco de enrolar, que rapidamente chegam ao Ocidente. Até 1881, ano em que o norte-americano James Bonsack inventou uma máquina que fazia 200 cigarros /minuto, o cachimbo foi rei, e em 1928 a média anual de produção de cachimbos era ainda de 8.4 milhões de unidades, dois terços dos quais saídos das empresas de Saint-Claude.

Não obstante a sua condição implícita de “objecto de uso” – mesmo quando utilizado em contextos rituais -, o cachimbo é hoje, não poucas vezes, pelo seu design e valor, uma peça de colecção e de arte.

In "Cachimbos-Marcas, Fabricantes e Artesãos"  por José Manuel Lopes da Quimera Editores