Vejamos alguns tipos de cachimbos e os materiais empregues na sua produção:

  • Cachimbo em urze

O cachimbo mais comum e objecto principal deste trabalho no que concerne às marcas que apresentamos. É produzido a partir de uma excrescência da raiz da urze, arbusto que só existe na bacia do Mediterrâneo e em solos pedregosos, quentes e secos. 

Esta madeira apresenta diversas vantagens: beleza dos veios, resistência a altas temperaturas, leveza, dureza, porosidade e facilidade com que pode ser trabalhada. Todavia, o arbusto demora dezenas de anos a crescer e há falta de mão-de-obra para recolher a madeira nos montes. 

Oficialmente, os primeiros cachimbos em Erica arbórea foram feitos em 1856 pela Comoy’s, embora a marca Courrieu reivindique tê-los produzido desde o início do século XIX.

  • Cachimbo em espuma de mar

Depois da urze, a espuma do mar é o material mais utilizado para fazer cachimbos. Trata-se de um hidro-silicato de magnésio, um mineral quase branco, muito leve, poroso, resistente ao calor e com grande capacidade para absorver a nicotina, e que tem como inconvenientes apenas a sua fragilidade e a sensibilidade às mudanças bruscas de temperatura. 

A Turquia tem cerca de 70% das reservas mundiais de espuma de mar, e as melhores minas do mundo situam-se junto à cidade de Eskisehir, na vila de Beyazaltin (“ouro branco”, em turco), encontrando-se a uma profundidade que varia entre os 90 e os 300 metros. Existe ainda a African meerschaum, mais dura e, portanto menos valiosa do que o mineral extraído na Turquia. A qualidade deste material varia bastante, sendo a melhor vulgarmente designada por 3-Museum. 

Os cachimbos em espuma de mar – com boquilhas em âmbar, hoje substituídas por âmbar sintético ou metacrilato – tiveram grande prestígio e divulgação nos séculos XVIII e XIX. 

Budapeste é apontada como a cidade onde “nasceram” estes cachimbos, e Viena a capital que os tornou populares. Ali se situavam as melhores lojas e alguns dos principais fabricantes (Hartmann, Adler, Samuel), que forneciam cachimbos esculpidos para a corte, para diplomatas e homens de negócios. 

Após a II Guerra Mundial, a producção austríaca quase se extinguiu, e hoje a Turquia não permite a exportação da matéria-prima. A qualidade baixou bastante, embora existam ainda, na Turquia e não só, alguns grandes artistas da espuma de mar.

Muito fácil de trabalhar, este mineral é usado em vários ornamentos. A espuma de mar é esculpida com facas e depois polida e sujeita a vários banhos, com gordura de baleia (blan de baleine, antigamente) e cera de abelha, que além do efeito estético ajudam à saída da nicotina para o exterior. 

Devido à porosidade, o fornilho do cachimbo vai absorver a nicotina e gradualmente ganhar cor, do branco para tons rosa, castanhos, amarelados e alaranjados. 

É recomendável fumar o cachimbo em casa e, de inicio, segurá-lo com um lenço, um pano ou uma luva para não se deixar marcas dos dedos no fornilho, prática que pode ser abandonada logo que a peça ganhe patine

Existem igualmente cachimbos em espuma de mar compactada (pressed meerschaum), feitos com desperdícios do bloco de mineral, cujo preço e valor são muito inferiores.

  • Cachimbo em porcelana

Criação alemã, surgiu por volta de 1710 e levava habitualmente motivos decorativos. Produzido com um material cerâmico formado por silicato de alumínio e silicato de potássio, o cachimbo em porcelana é mais resistente que o cachimbo em caulino, mas não é muito apreciado pelos fumadores devido ao seu aquecimento e à não porosidade. Contudo, alguns deles – cujos atributos estéticos (escultóricos e pictóricos) e a riqueza de materiais, com canelas em cerejeira, boquilhas em chifre e adornos em prata, lhes conferem um carácter de verdadeiras peças de arte – são muito disputados por coleccionadores e chegam a atingir em leilão preços na ordem dos 20 mil euros. 

Foram produzidos sobretudo nos séculos XVIII e XIX na Europa Central (Alemanha, Holanda, França, Áustria e países escandinavos), com os mais célebres a saírem das fábricas de Meissen, Nyon e Sèvres. 

  • Cachimbo em cabaça (calabash pipe)

Teve o seu apogeu do inicio do século XX até 1914. Os autênticos calabash são feitos com uma cabaça especial sul-africana, cultivada apenas para este fim, e cuja forma é “moldada” durante o crescimento. No interior da cabaça é inserido um fornilho móvel em espua de mar. 

Imortalizado por Sherlock Holmes, este cachimbo marcou uma época, mas é hoje pouco comum. O calabash, com o seu desenho em “S”, deu o nome a uma das formas clássicas de cachimbos.

  • Cachimbo em oliveira

Mais frágil e menos resistente ao calor do que a urze, o cachimbo com fornilho em oliveira, quando bem usado, apresenta uma bela coloração da madeira. Não aconselhável aos iniciados.

In "Cachimbos-Marcas, Fabricantes e Artesãos"  por José Manuel Lopes da Quimera Editores